Previsto, comprometido, recebido e pago: quatro coisas diferentes na gestão financeira da ONG
Equipe Nexus
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Pontos-Chave sobre Previsto, Comprometido, Recebido e Pago
- Uma despesa passa por estados diferentes. Prevista no orçamento, assumida (comprometida), entregue (realizada) e paga são quatro momentos. Misturá-los esconde dívidas e atrasos.
- Uma receita também. Oportunidade, promessa, compromisso formal, dinheiro recebido e dinheiro aplicado não são a mesma coisa. Contar a promessa como caixa é o erro mais caro de uma ONG.
- Saldo bancário não é dinheiro livre. Parte do que está na conta pode ter destino definido por um financiador ou por um doador.
- Cada data conta uma história. Competência, emissão da nota, entrega, vencimento e pagamento são datas distintas e precisam ser registradas separadamente.
- Sem dado não é zero. "Não informado" e "R$ 0,00" são respostas diferentes e levam a decisões diferentes.
O Erro que Quase Toda ONG Já Cometeu
A diretora olha o saldo do banco, vê R$ 50.000 e aprova a contratação de uma oficineira. Dois meses depois, a ONG não consegue pagar a conta de luz. O que aconteceu?
Dos R$ 50.000, R$ 30.000 eram o repasse de um projeto e só podiam ser usados nas despesas daquele projeto. R$ 12.000 já estavam comprometidos com contas que venceriam em breve. Sobravam R$ 8.000 de recurso realmente livre, e a nova contratação custava mais que isso.
Nada nessa história é incompetência. O problema é que o saldo da conta responde a uma pergunta (quanto há no banco?) e a decisão exigia outra (quanto posso gastar, com o quê, até quando?). A gestão financeira da ONG é, em boa parte, a disciplina de manter essas perguntas separadas.
Os Estados de uma Despesa
Toda despesa passa por uma cadeia. Para despesas relevantes, vale registrar cada passo; para despesas pequenas e recorrentes, a ONG pode simplificar, desde que decida isso por escrito.
| Estado | O que significa | Pergunta que responde |
|---|---|---|
| Prevista | Consta no orçamento ou no plano | O que planejamos gastar? |
| Aprovada | Alguém com autoridade autorizou | Pode gastar? |
| Comprometida | Assumimos a obrigação (contrato, pedido, compra) | O que já devemos, mesmo sem ter pago? |
| Realizada (atestada) | O bem ou o serviço foi entregue e conferido | O que recebemos de fato? |
| Paga | O dinheiro saiu da conta | Quanto saiu? |
| Comprovada e conciliada | Há documento e o pagamento bate com o extrato | Podemos mostrar? |
O ponto central: previsto não é obrigação, obrigação não é gasto e gasto não é pagamento. Quem só olha o que foi pago enxerga o passado. Quem olha o comprometido enxerga o que vai sair nas próximas semanas.
Alguns detalhes que evitam confusão:
- Atesto é a confirmação de que o serviço ou o produto foi entregue, feita por quem recebeu. Nota fiscal prova a venda, não a entrega.
- Nota fiscal não é prova de pagamento. A prova é o comprovante bancário e o extrato.
- Pagamento parcial precisa ser tratado como tal: a despesa continua em aberto pelo saldo, e alguém decide se quita o restante ou mantém o saldo.
- Cancelar não é apagar. Uma despesa cancelada deve manter o motivo registrado, e uma despesa já conciliada ou incluída em uma prestação de contas enviada não deve ser simplesmente excluída.
Os Estados de uma Receita
A receita tem seu próprio caminho, e é aqui que a confusão custa mais caro.
| Estado | O que significa | Pode contar como caixa? |
|---|---|---|
| Oportunidade | Um edital, uma campanha ou uma parceria em estudo | Não |
| Proposta enviada | Pedimos o recurso | Não |
| Promessa ou aprovação | O financiador disse que vai apoiar | Não |
| Compromisso formal | Há um instrumento assinado, com valor e condições | Não, mas entra no planejamento |
| Recebido | O dinheiro entrou na conta | Sim, com a destinação definida |
| Aplicado | O recurso foi usado no objeto combinado | Já consumido |
| Comprovado | O uso foi demonstrado a quem financiou | Fechado |
Uma regra simples: só o que entrou na conta é caixa. O compromisso formal ajuda a planejar, e a promessa ajuda a esperançar, mas nenhum dos dois paga salário. Quando a ONG estima o caixa dos próximos meses, vale separar duas colunas: "já recebido" e "esperado, com o grau de certeza".
Outras distinções úteis:
- Recebimento não é cumprimento. Receber o repasse não significa que a contrapartida ou a entrega prometida foi executada.
- Transferência entre contas da própria ONG não é receita nem despesa. Se isso entrar na conta de resultado, os números dobram.
- Valor bruto não é valor líquido. Taxas de meios de pagamento e tarifas diminuem o que de fato chega.
- Promessa não é recurso. Em um edital, "aprovado" muitas vezes quer dizer "habilitado a assinar", e a liberação segue o cronograma do instrumento.
Saldo Bancário, Recurso Livre e Recurso Vinculado
Esse é o conceito mais importante para quem recebe de mais de uma fonte.
- Recurso livre pode ser usado em qualquer despesa da ONG (por exemplo, doações sem destinação específica).
- Recurso vinculado (ou com restrição) só pode ser usado para o fim definido por quem o concedeu: um projeto, uma rubrica, uma atividade.
A distinção aparece na lei e na contabilidade. A Lei nº 13.019/2014 (MROSC), por exemplo, exige que os recursos de uma parceria com a administração pública sejam depositados em conta corrente específica (art. 51), justamente para separá-los do restante. E a norma contábil das entidades sem finalidade de lucros (ITG 2002 (R1), do Conselho Federal de Contabilidade) trata a parcela do superávit com restrição de aplicação de forma separada. Peça ao contador que explique como isso aparece nas demonstrações da sua ONG.
Na gestão, o que importa é criar uma visão simples:
| Item | Valor (exemplo) |
|---|---|
| Saldo total nas contas | R$ 50.000 |
| (−) Recursos vinculados a projetos | R$ 30.000 |
| (−) Obrigações comprometidas nas próximas semanas | R$ 12.000 |
| = Recurso livre disponível | R$ 8.000 |
Cuidados ao montar essa visão:
- Não some o que não é comparável. Não misture recurso vinculado com livre em um número só.
- Cada recurso vinculado tem seu saldo próprio, que só pode ser usado dentro das regras do instrumento.
- Despesa sem critério de rateio fica "não alocada". Estimar a parcela de cada projeto "no olho" cria problemas na prestação de contas.
- Um custo nunca deve ser apropriado a dois projetos ao mesmo tempo. A dupla apropriação é um dos erros mais comuns e mais caros.
Datas: Cada Uma Conta uma História
Uma única despesa tem várias datas, e elas não coincidem:
| Data | O que registra |
|---|---|
| Competência | Em que período a despesa pertence |
| Emissão | Quando o documento fiscal foi emitido |
| Atesto | Quando a entrega foi conferida |
| Vencimento | Quando precisa ser paga |
| Pagamento | Quando efetivamente saiu da conta |
Um serviço prestado em setembro, com nota emitida em outubro e pago em novembro mostra em setembro um custo que o caixa só sentiu em novembro. Registrar uma única data distorce o relatório mensal e a prestação de contas. Quando uma data é desconhecida, deixe em branco. Uma data inventada é pior que uma data ausente.
Uma Planilha Mínima para Começar
Não precisa de sistema para organizar isso. Em uma planilha, para despesas, algumas colunas já mudam o cenário:
| Coluna | Para quê |
|---|---|
| Descrição e fornecedor | Identificar o gasto (se não houver fornecedor, marque "não identificado") |
| Projeto e rubrica | A que se destina |
| Valor previsto, valor comprometido, valor pago | Os três estágios |
| Data de competência, de vencimento e de pagamento | As datas independentes |
| Status | Prevista, aprovada, comprometida, atestada, paga, conciliada |
| Responsável pela aprovação e pelo atesto | Quem decidiu e quem conferiu |
| Documento | Referência ao comprovante |
E para receitas: fonte, valor esperado, estado (oportunidade, proposta, compromisso, recebido), data prevista e data real, destinação (livre ou vinculada) e saldo a utilizar.
Revise essa planilha uma vez por semana, por quinze minutos. A pergunta é: o que vence nas próximas quatro semanas, e com que recurso vamos pagar?
Indicadores que Valem a Pena
Poucos números, bem definidos, bastam:
- previsto, comprometido e pago, por projeto e por fonte;
- despesas vencidas, pendentes e parcialmente pagas;
- percentual de despesas com comprovante e conciliadas;
- recurso livre disponível, separado do vinculado;
- cobertura das obrigações das próximas semanas;
- concentração por fonte: quanto da receita depende de um só financiador.
Evite um "índice de saúde financeira" único. Ele esconde justamente as diferenças que este texto defende.
Quem Faz o Quê em uma ONG Pequena
Em uma equipe pequena, a mesma pessoa pode registrar, pagar e conferir. O mínimo para reduzir o risco é que quem solicita um gasto não seja quem o aprova e que alguém diferente confira o extrato de tempos em tempos. O texto sobre segregação de funções em ONGs pequenas mostra como fazer isso com poucas pessoas.
Como o Nexus Social Trata o Assunto
No Nexus Social, as despesas podem ser registradas com comprovante e categoria e acompanhadas por projeto, o que sustenta a visão de previsto, realizado e pago por projeto e facilita a prestação de contas. A lógica deste texto, porém, vale com ou sem sistema: o que importa é separar os estados e manter as datas independentes. Veja também gestão financeira em OSCs e despesas do projeto, comprovantes e conciliação.
Perguntas Frequentes
Qual a diferença entre despesa comprometida e despesa paga?
Despesa comprometida é a obrigação já assumida (pedido, contrato, serviço entregue), mesmo que o pagamento ainda não tenha sido feito. A paga é a que já saiu da conta. Olhar só o pago esconde o que vai sair nas próximas semanas.
O saldo da conta é o dinheiro que posso gastar?
Nem sempre. Parte do saldo pode estar vinculada a um projeto ou a um fim específico, e parte pode estar comprometida com contas próximas. O que você pode gastar livremente é o saldo menos o vinculado e o comprometido.
Posso contar o valor de um edital aprovado como receita do ano?
Como planejamento, sim, com o grau de certeza explícito. Como caixa, só quando o dinheiro entrar. Entre os dois, o recurso fica em "compromisso" ou "a receber", e o cronograma do instrumento define quando a ONG poderá usá-lo.
Transferência entre contas da ONG é receita?
Não. É movimentação interna. Se for lançada como receita e despesa, os números do período ficam inflados.
Preciso de contador para fazer isso?
A gestão financeira (acompanhar caixa, compromissos e destinação) é da ONG. A escrituração, os tributos e as demonstrações contábeis são do contador. Os dois trabalham melhor quando a gestão registra os estados e as datas corretamente.
Como tratar doação de bens e serviços?
Doação em espécie (bens ou serviços) não é caixa e deve ser registrada à parte, com a forma de valoração usada. Misturar com o dinheiro distorce o saldo.
Conclusão
Previsto, comprometido, recebido e pago são quatro respostas a quatro perguntas diferentes. Separá-los, distinguir recurso livre de vinculado e registrar cada data no seu lugar dá à diretoria uma visão em que se pode confiar para decidir e dá à prestação de contas uma base que não precisa ser reconstruída no último dia. Comece pela planilha mínima e pela revisão semanal de quinze minutos: é a mudança de menor custo e maior efeito.
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Fontes e Referências
- Lei nº 13.019/2014 (MROSC) — Planalto — Conta corrente específica para os recursos da parceria (art. 51)
- Conselho Federal de Contabilidade — Entidades sem Finalidade de Lucros — ITG 2002 (R1), que trata da contabilidade das entidades sem fins lucrativos; confirme com o contador a aplicação à sua ONG
Escrito por Equipe Nexus
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