O que posso enviar da minha ONG para a IA? Um guia em três cores
Equipe Nexus
Autor9 min de leitura
Pontos-Chave sobre o Que Enviar da ONG para a IA
- A pergunta certa não é "posso usar IA?", e sim "que dado estou colocando nela?". O mesmo texto pode ser seguro ou arriscado dependendo do que há dentro.
- Use três cores. Verde: o que é público ou não identifica ninguém. Amarelo: o que só vai depois de anonimizado ou em ferramenta contratada. Vermelho: o que não vai, em hipótese alguma, para uma ferramenta de uso geral.
- Tudo o que identifica uma pessoa atendida, e tudo o que revela a situação dela, é vermelho. Isso inclui nome, CPF, relato de atendimento, saúde e dados de crianças.
- Anonimizar é mais difícil do que trocar o nome. O contexto pode identificar a pessoa.
- Esta é a primeira de seis partes. As demais tratam do ChatGPT, do Gemini, dos cuidados com os dados, dos termos do atendido e de como orientar a equipe.
Por Que Esta Pergunta Vem Antes de Todas as Outras
Quase toda ONG já usa IA, mesmo sem ter decidido isso. Alguém da equipe pede um resumo de ata, um voluntário rascunha uma legenda, uma coordenadora pede ajuda para escrever o relatório de um edital. Na maior parte das vezes, tudo bem. O problema aparece quando, no meio da pressa, o texto colado carrega o nome de uma criança, o relato de um atendimento ou a planilha inteira de uma turma.
Antes de escolher ferramenta, configuração ou política, a ONG precisa de um critério simples que qualquer pessoa da equipe aplique em dez segundos. É isso que o guia em três cores oferece. Ele não substitui a análise jurídica, e quando o caso é dúvida real, vale falar com quem responde por proteção de dados na organização. Mas resolve a imensa maioria das situações do dia a dia.
Verde: o Que Pode Ir
Verde é tudo o que já é público ou que não permite identificar nem localizar uma pessoa. Alguns exemplos:
- Textos institucionais já publicados: missão, história, descrição de projetos que constam no site.
- Conteúdo de comunicação: pedir ideias de legenda, roteiro de vídeo, título de campanha, calendário editorial.
- Material genérico de gestão: modelo de ata, roteiro de reunião, estrutura de relatório, checklist de voluntariado.
- Dados agregados sem possibilidade de identificar alguém: "atendemos 120 famílias no trimestre", desde que o número seja de um grupo grande e já esteja nos relatórios da ONG.
- Perguntas gerais: "como funciona um termo de fomento?", "qual a diferença entre CRAS e CREAS?". Para qualquer resposta legal, confira a fonte oficial, porque a IA pode errar.
Mesmo no verde, a regra de ouro continua: a resposta é rascunho. Quem assina o texto responde por ele.
Amarelo: o Que Só Vai com Cuidado
Amarelo é o território do "depende". São informações que não são públicas, mas também não identificam diretamente uma pessoa, ou que identificam e por isso exigem uma ferramenta com garantias contratuais:
- Rascunhos de relatório e prestação de contas que citam valores, metas e parceiros. Os números devem vir dos registros da ONG, nunca do texto da IA.
- Casos reais descritos de forma anonimizada: "uma família com três filhos, em município de pequeno porte, relata dificuldade de acesso a transporte". Cuidado: se só existe uma família assim no município, ela está identificada.
- Documentos internos: políticas, regimentos, planejamentos estratégicos. Não têm dado de atendido, mas podem ser confidenciais.
- Dados de doadores e de parceiros, inclusive empresariais, que estejam sob acordo de confidencialidade.
- Informações de funcionários e voluntários, como currículos e avaliações.
A pergunta que muda a cor é: a ferramenta que vou usar é uma conta pessoal e gratuita, ou uma conta institucional, com contrato e configuração definida pela ONG? No segundo caso, o amarelo fica mais perto do verde. No primeiro, mais perto do vermelho. Os posts sobre ChatGPT e Gemini mostram essa diferença na prática.
Vermelho: o Que Não Vai
Vermelho é o que não deve ser digitado, colado nem anexado em ferramentas de IA de uso geral:
- Nome, CPF, RG, endereço, telefone e e-mail de pessoas atendidas, de famílias e de voluntários.
- Relatos de atendimento, prontuários, laudos, encaminhamentos e qualquer registro do acompanhamento de alguém.
- Dados sensíveis: saúde, deficiência, orientação sexual, convicção religiosa, origem racial ou étnica, entre outros listados no art. 5º, II, da LGPD, que exigem hipóteses legais mais restritas (art. 11).
- Qualquer dado de criança ou adolescente. A lei pede que o tratamento atenda ao melhor interesse deles (art. 14). O guia sobre ética de dados de crianças e adolescentes aprofunda.
- Fotos, vídeos e áudios de pessoas atendidas.
- Senhas, chaves de acesso, dados bancários e documentos de pagamento.
- Planilhas e exportações do sistema, ainda que "só para ajudar a montar um gráfico". Uma planilha inteira vai com todas as colunas, inclusive as que você nem lembrava que existiam.
O motivo é simples: assim que o dado sai da organização para um serviço externo, a ONG perde parte do controle sobre ele. A LGPD pede que o tratamento se limite ao necessário para a finalidade (art. 6º, III) e que o controlador adote medidas de segurança (art. 46). Enviar dados de atendidos a uma ferramenta que a ONG nem avaliou vai na direção contrária das duas.
E Se Eu Anonimizar?
Anonimizar é a saída mais citada, e ajuda muito, mas é mais delicada do que parece. A LGPD considera anonimizado o dado que não permite identificar o titular, e deixa de ser anonimizado o dado que pode ser revertido com esforços razoáveis (art. 12). Na prática, três cuidados:
- Trocar o nome não basta. "Maria, 12 anos, moradora do bairro X, filha de uma cuidadora de uma escola" identifica alguém para quem conhece a comunidade.
- O contexto também identifica. Datas, locais, nomes de escolas, profissões e situações pouco comuns funcionam como pistas.
- Quanto menor o grupo, maior o risco. Em cidades pequenas, quase tudo identifica.
Uma boa prática é escrever com marcadores genéricos ("a família A", "o adolescente de 14 anos", "o município X"), tirar tudo o que é dispensável para o pedido e reler como se você fosse um vizinho da pessoa. Se o vizinho reconhece, não está anonimizado.
O Teste dos Dez Segundos
Antes de enviar qualquer coisa, a equipe pode responder a três perguntas:
- Essa informação já é pública? Se sim, siga em frente.
- Alguém consegue descobrir quem é a pessoa, ou onde ela está, a partir deste texto? Se sim, pare.
- Estou usando uma conta da ONG, com regras definidas, ou a minha conta pessoal? Se for pessoal, trate como se fosse a rede social.
Colar essas três perguntas num cartaz ou no topo do documento de política é mais eficaz do que um manual de vinte páginas. O post sobre como evitar que a equipe envie dados pessoais para a IA mostra como transformar isso em rotina.
Exemplo Prático: Três Pedidos na Mesma Semana
Numa ONG de contraturno, em uma única semana, a equipe faz três pedidos à IA.
Pedido 1: "Sugira cinco títulos para a campanha de fim de ano de uma ONG que oferece reforço escolar." É verde. Nenhuma pessoa é citada.
Pedido 2: "Reescreva este trecho do relatório do edital com tom mais objetivo." O trecho cita metas, valores e o nome de uma parceira. É amarelo. Antes de enviar, a coordenadora confere se o parceiro autoriza, remove o que não é necessário e usa a conta institucional.
Pedido 3: "Resuma o atendimento do João, 9 anos, que faltou três semanas seguidas e cuja mãe contou que perdeu o emprego." É vermelho em todos os sentidos: nome, idade, situação familiar e dado de uma criança. A saída certa é escrever o resumo na ficha do sistema da ONG e, se precisar de ajuda com a redação, pedir um modelo genérico de registro, sem o caso.
A diferença entre os três não está na ferramenta. Está no que foi colocado nela.
Como o Nexus Social Trata o Assunto
No Nexus Social, os recursos de IA funcionam dentro do sistema, para a equipe, e seguem as regras de acesso definidas pela organização. Dados pessoais são mascarados antes de qualquer chamada ao modelo, e cada uso fica registrado na trilha de auditoria. O objetivo é que a pessoa que precisa de ajuda com um relatório não tenha que copiar dados de atendidos para uma janela externa. O texto sobre IA generativa no terceiro setor detalha os casos de uso.
Perguntas Frequentes
Posso enviar uma planilha de atendidos para a IA gerar um gráfico?
Não, se a planilha tiver nomes, CPFs ou qualquer coluna que identifique pessoas. Gere o gráfico no próprio sistema ou na planilha, ou envie apenas os totais já agregados, sem possibilidade de identificar alguém.
Dado anonimizado pode ser enviado?
Pode, desde que seja de fato anonimizado. A LGPD deixa de considerar anonimizado o dado que pode ser revertido com esforços razoáveis (art. 12). Se o contexto permite reconhecer a pessoa, trate como dado pessoal.
Posso enviar o nome de um doador ou de uma empresa parceira?
Nome de doador pessoa física é dado pessoal. Dados de empresas parceiras podem estar sob acordo de confidencialidade. Em ambos os casos, o caminho é o amarelo: só em ferramenta contratada pela ONG, só o necessário e, quando houver acordo, conferindo o que ele permite.
Posso mandar fotos das atividades para a IA descrever?
Fotos em que aparecem pessoas atendidas, sobretudo crianças e adolescentes, são vermelhas. O guia sobre consentimento de uso de imagem explica o cuidado.
A IA pode ler o contrato com o parceiro para eu entender?
Depende do que o contrato diz sobre confidencialidade e de qual ferramenta é usada. Em dúvida, peça autorização ao parceiro ou use uma conta institucional com garantias contratuais.
Conclusão
Decidir o que enviar da ONG para a IA é um exercício de classificação, não de tecnologia. Verde para o que é público ou genérico, amarelo para o que exige cuidado e ferramenta adequada, vermelho para o que identifica pessoas atendidas e nunca deve sair. Com esse critério, a equipe ganha agilidade sem colocar ninguém em risco, e a organização tem uma regra simples para escrever na política interna.
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Fontes e Referências
- Lei nº 13.709/2018 (LGPD) — Planalto — Dados sensíveis (art. 5º, II e art. 11), necessidade (art. 6º, III), anonimização (art. 12), crianças e adolescentes (art. 14) e segurança (art. 46)
Escrito por Equipe Nexus
Equipe Nexus Social dedicada a compartilhar conhecimento e tecnologia para o fortalecimento do terceiro setor.